Como a escola pode lidar com a violência social?

Quando a violência extramuros ronda seus alunos, o projeto político pedagógico da escola deve ter como prioridade o combate a esse mal. Através do debate e da reflexão em sala de aula, pode-se promover soluções institucionais possíveis contra a violência.

A importância da autonomia escolar
Desde meados da década de 1990, a gestão da educação pública brasileira vem passando por um processo de descentralização com o intuito de aumentar a autonomia de gestão de cada escolaem suas principais dimensões: pedagógica, administrativa, jurídica e financeira. Assim, a partir de uma gestão individual e local, cada instituição pode atender e atentar para suaespecifidade e, consequentemente, para as relações sociais que desenvolve com a comunidade ao qual serve.
A autonomia pedagógica estabelece seus parâmetros de ensino e pesquisa, a partir da elaboração de um projeto político pedagógico próprio, que estabelece suas grades e atividades curriculares. Assim, cada escola tem seu projeto que, necessariamente, obedece a certos parâmetros nacionais de educação estabelecidos pelo governo federal: Constituição Federal, Parâmetros Curriculares Nacionais, Leis de Diretrizes e Bases da Educação, Diretrizes Curriculares Nacionais. Todavia, a autonomia pedagógica também garante à escola a possibilidade de adaptar certos parâmetros e diretrizes, dando ênfase aos problemas mais drásticos enfrentados por ela. Do mesmo modo, uma autonomia administrativa e financeira faz com que ela possa levar em conta as variáveis sociais, geográficas e culturais na qual está inserida e distribuir seus recursos de acordo com suas necessidades mais urgentes.

O papel da escola contra a violência
Quando a necessidade mais urgente que se faz notar em determinada escola é a questão da violência, por estar inserida em uma zona de risco e atender a alunos que já tenham tal problema naturalizado em seu cotidiano, certamente, a instituição deve se valer de um projeto pedagógico e de uma gestão de recursos que coloque no topo de sua lista de prioridades o combate a esse mal. Mais do que um simples investimento em cerceamento e demais aparatos de segurança, é preciso um projeto pedagógico que vise desconstruir a violência já naturalizada pelas crianças e jovens dessa comunidade, para que, assim, em médio ou longo prazos, os muros que protegem a instituição possam ser derrubados, tornando o que toda escola pública deveria ser: um espaço de ensino e vivência destinado à sua comunidade.
Não sejamos ingênuos ao ponto de propor a derrubada dos muros antes da resposta social à ação da escola. Muito pelo contrário. A escola é patrimônio público que deve ser protegido e conservado, para tanto, enquanto não for possível nem seguro tomá-la como um espaço aberto e respeitado por todos, realmente não há como ser diferente. Antes de estabelecer uma mudança na estrutura física da escola, é preciso uma mudança em sua estrutura humana, por conseguinte, em seu projeto-político-pedagógico. Quando a violência que cerca a escola torna-se um problema a também ser resolvido pela instituição, todo seu projeto pedagógico e parte relevante de seus recursos devem ser destinados à questão.

Projeto político pedagógico e violência
Primeiramente, a partir da conscientização, orientação e desnaturalização da violência para as crianças mais novas. Nas séries iniciais há uma maior possibilidade de internalizar no sujeito uma lógica pacífica que perceba certas transgressões sociais como errôneas, ainda que cotidianas. É possível uma tentativa da escola de apontar problemas, sugerir reflexões e enraizar valores a serem desenvolvidos conforme a formação da criança.
Para as crianças mais velhas e adolescentes, que de alguma maneira já carreguem traços da violência de sua experiência, refletindo-os no comportamento como fatores parcialmente naturalizados, é preciso um debate mais profundo que incitereflexões mais densas. Para isso, o professor precisa colocar-se no lugar do aluno, falar a sua língua e não se portar como uma autoridade com algum poder coercitivo, pois isto esses jovens já vivem nas ruas diariamente. E esta é uma das principais causas do problema:toda e qualquer coerção social que despreze e marginalize o indivíduo, submetendo-o a um patamar inferior, acaba gerando violência, tanto física quanto simbólica. A educação não deve se prestar a isso.

Em muitos casos, o problema é tão enraizado que as possibilidades de mudanças propiciadas pela escola tornam-se pequenas, mas de toda forma, ela deve sempre prestar o seu papel. De toda maneira, a violência é um problema a ser resolvido em longo prazo, numa conjuntura de papeis e deveres de diversas instituições governamentais, não apenas da escola, como também de cada cidadão. Jogar toda a responsabilidade na escola é a solução. No entanto, ela ainda é o maior espaço social de debates e busca de soluções.

Texto produzido pela equipe da Futuro Eventos.

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