Conflito na Educação Infantil: problema ou aprendizagem?

Ao final desta leitura você encontrará dicas para serem incorporadas à sua prática de sala de aula, terá também outro olhar para os conflitos que ocorrem no seu dia-a-dia.

 

Sabemos que muitos educadores perdem parte da rotina do dia-a-dia na escola de Educação Infantil resolvendo conflitos, sendo que estes são entendidos pela maioria dos profissionais como problemas que interferem no encadeamento dos trabalhos. Partindo desta realidade, dúvidas se colocam aos profissionais: como atuar de forma mais assertiva nos momentos em que surgem os conflitos? Qual é a ação do adulto e da criança? A forma como os conflitos são resolvidos desenvolve a autonomia das crianças?
Diversos autores apresentam em suas pesquisas, que há uma tentativa dos educadores de ignorar, conter ou até mesmo inibir que os conflitos ocorram. Porém, como gestora de uma unidade, percebia que não era possível agir desta forma e que haveria outra maneira para resolver conflitos sem ser esta apontada pelas pesquisas. Foi então, que busquei nos estudos desenvolvidos pelo GEPEM (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral- UNICAMP- UNESP), ferramentas que pudessem me auxiliar.
Por meio de estudos, especificamente de um livro: “O educador e a Moralidade: numa perspectiva construtivista”, pude encontrar um arcabouço teórico fundamentado na teoria Piagetiana que permitiu ver o conflito não como um problema e sim como uma oportunidade para a construção de aprendizagens.
Conflitos: aprendizagens! E não problemas!!!
Visto sob esta perspectiva, os conflitos passaram a auxiliar na construção de valores, à medida que colocamos as crianças para refletirem sobre os seus problemas cotidianos e ao mesmo tempo proporem soluções para a resolução dos mesmos. Será aprendizagem, à medida que acreditarmos que as crianças possuem a potência em repensar suas ações e dar encaminhamentos não pensados pelos adultos. Gera aprendizagem, quando reconhecermos que há construção de valores neste momento e que somos nós educadores que podemos propiciar situações em que as crianças reflitam sobre respeito, generosidade, participação. Propicia aprendizagem, à medida que se reconhece que o conflito é das crianças e que, portanto, são elas as responsáveis para utilizarem argumentos com os seus pares, fazerem defesa do ponto de vista, cuidarem do amigo que feriu. (tive intenção em repetir as palavras –à medida que, será aprendizagem – gera-)
Na prática: o que fazer?
É essencial que a equipe escolar busque a construção de um ambiente sociomoral positivo, em que as crianças participem na tomada de decisões, tenham pequenas responsabilidades no cotidiano escolar, vivam momentos em cantinhos de atividades diversificadas em que possam exercitar o seu poder de escolha, escolher com autonomia seus parceiros de trabalho e os seus agrupamentos e que o papel de centralidade do adulto seja minimizado.
Dicas para o trabalho:
Faça um levantamento com o seu grupo da Educação Infantil quais são os problemas mais comuns por ele vivenciado: pode ser a areia nos olhos nos momentos de brincadeira de parque, o livro rasgado, brigas, brinquedos espalhados pela sala, disputa por um objeto ou pelo colo do adulto. Torne essas ações objetos de reflexões, por meio de rodas de conversa. Como fazer? Monte cartões com ilustrações destas situações, de maneira que as crianças levantem entre elas possibilidades de resoluções desses problemas. Deixe-as discutir, registrar e sistematizar o resultado da conversa em roda. Lembramos a todos os profissionais, que este é um trabalho que amplia a tomada de consciência das crianças, as fazendo a avançar moralmente a cada dia.

Marcia Bueno
Mestre em Educação Escolar (UNESP), Especialista em Educação Infantil (UNIFRAN), Especialista em Docência nos Ensinos Fundamental e Médio (UNIMEP), Especialista em Violência Contra a Criança e o Adolescente (USP), Diretora de Escola da Rede Municipal de Jundiaí, membro do GEPEM – Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral – UNICAMP - UNESP(Araraquara)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

RECEBA NOSSO CONTEÚDO EXCLUSIVO.