Cortes na pesquisa nacional e sua repercussão internacional

O orçamento ao desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil sofreu um corte enorme neste ano e a perspectiva é maiores reduções para 2018. Por que isso afeta o nosso futuro?

 

No último dia 29, o presidente Michel Temer recebeu uma carta assinada por 23 cientistas do mundo inteiro, todos vencedores do Prêmio Nobel nos últimos 40 anos. O conteúdo da carta reside na preocupação dessas cabeças pensantes com o fato de que o orçamento voltado para o fomento da pesquisa no Brasil sofreu cortes graves neste ano, tendendo a ser ainda mais reduzido em 2018. O orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações foi de R$ 3,2 bilhões em 2017, uma redução de 44% em relação ao ano anterior. Em 2013, esse orçamento era de R$ 10 bilhões, sem considerar a inflação do período. Para 2018, estima-se que haverá um novo corte de 15,5%. Mas esses cortes se justificam pela crise financeira que o país atravessa ou são medidas à curto prazo que acabariam prejudicando o nosso futuro?

A pesquisa e a inovação científica no Brasil surgiu há pouco tempo, por volta da década de 1970, quando começaram os primeiros cursos de pós-graduação stricto sensu nacionais. Antes disso, pesquisadores tinham que complementar a sua formação no exterior. Até hoje a sociedade, em geral, não entende direito o conceito de pesquisa científica ou o que um doutorando, mestrando ou pesquisador de fato faz. A pesquisa mal é considerada trabalho, quando, na verdade, é mais que um trabalho, é um esforço essencial para o desenvolvimento do país. Ela tende a se concentrar na área governamental, uma vez que há maior liberdade de atuação. O setor privado não investe muito em pesquisa científica no Brasil e, quando investe, normalmente é para atingir objetivos específicos que completem as demandas de determinada empresa.

Porém, um dos grandes fatores que estimulam pesquisadores é encontrar caminhos que nem sempre são vislumbrados de antemão e que, normalmente, não obedecem a uma lógica de mercado já existente. Por exemplo, uma empresa provavelmente irá investir num projeto de pesquisa que proponha um utilitário ainda não existente, isso dificilmente a atrairia. Por isso, a inovação científica se concentra mais no setor público. E daí a importância de um orçamento anual digno para a área.

Na carta enviada pelos prêmios Nobel ao presidente, há a menção de uma possível “fuga de cérebros” do país, que “irá afetar os melhores e jovens cientistas. Enquanto em outros países a crise econômica levou, às vezes, a cortes orçamentários de 5% a 10% para a ciência, um corte de mais de 50% é impossível de ser acomodado, e irá comprometer seriamente o futuro do país”. Ou seja, os signatários da carta apontam para um desdobramento por vir que afetará profundamente o Brasil: a perda de seus melhores cérebros que, diante de um cenário inadequado para empreender suas pesquisas, preferirão trabalhar em países estrangeiros. Isso aumentaria ainda mais a dependência científica e tecnológica do Brasil com relação às grandes potências mundiais. Estaríamos destinados a não possuir uma ciência nacional, mas uma dependência de pensar seguindo modelos internacionais. É isso que queremos?

Ainda não houve resposta do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para a carta. Leia ela na íntegra abaixo:

“Vossa excelência Presidente Michel Temer, nós, os assinados abaixo ganhadores do prêmio Nobel, escrevemos para expressar nossa forte preocupação sobre a situação da Ciência e Tecnologia no Brasil. O orçamento para pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações sofreu um corte de 44% em 2017, e um novo corte de 15,5% é esperado para 2018. Isso vai prejudicar o país por muitos anos, com o desmantelamento de grupos internacionalmente renomados e uma ‘fuga de cérebros’ que irá afetar os melhores e jovens cientistas. Enquanto em outros países a crise econômica levou, às vezes, a cortes orçamentários de 5% a 10% para a ciência, um corte de mais de 50% é impossível de ser acomodado, e irá comprometer seriamente o futuro do país. Sabemos que a situação econômica do Brasil está muito difícil, mas pedimos ao senhor que reconsidere sua decisão antes que seja tarde demais”.

Texto produzido pela equipe da Futuro Eventos.

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