MEDICALIZAÇÃO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

QUE FENÔMENO É ESSE?

 

Medicalização é um fenômeno que vem crescendo em proporções alarmantes e um dos espaços que encontrou melhores condições para se propagar foi a escola. O aumento significativo e sem precedentes de encaminhamentos de crianças e adolescentes para profissionais da saúde chega a ser assustador. Considerado um problema político-social da maior importância, tem afetado não só crianças e jovens, mas, também, pais, professores, coordenadores, diretores, instituições de educação básica e superior e todos que têm participação nesse processo.
De acordo com as “Recomendações de Práticas não Medicalizantes para Profissionais e Serviços de Educação e Saúde”, cuja finalidade é possibilitar orientação sobre a temática, entende-se por medicalização é “processo por meio do qual as questões da vida social – complexas, multifatoriais e marcadas pela cultura e pelo tempo histórico – são reduzidas a um tipo de racionalidade que vincula artificialmente a dificuldade de adaptação às normas sociais a determinismos orgânicos que se expressaria no adoecimento do indivíduo”.
O Brasil é o segundo país no mundo que mais consome metilfenidato, Ritalina e Conserta, medicamentos utilizados para o tratamento de TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, perdendo apenas para os Estados Unidos da América. Conforme aponta o “ Instituto Brasileiro de Defesa do Usuário de Medicamento”, o IDUM, no ano 2000 foram vendidas 71 mil caixas da droga e em 2010 esse número alcançou a marca de 2 milhões de caixas vendidas.
Nos Estados Unidos, Dr. William Graf, neurologista pediátrico, em New Haven e professor na Escola de Medicina de Yale afirma estar chocado com os número de diagnósticos que, segundo ele, são astronômicos.
Em se tratando de medicalização na educação, o fato de um aluno apresentar um ritmo de aprendizagem ou comportamento diferente do padrão convencionado socialmente justificaria o diagnóstico de um suposto transtorno e em muitos casos a prescrição de um medicamento?
Geralmente, são alunos, tidos como indisciplinados e que não aprendem em decorrência de múltiplos fatores, principalmente, os relacionados a um sistema educacional anacrônico que legitima a manutenção de uma estrutura social que traz em seu discurso a igualdade de oportunidades, mas que, de forma concreta, encontra meios de selecionar e excluir. Assim, muitos deles são encaminhados aos consultórios de
médicos e psicólogos e, geralmente, recebem os diagnósticos de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade ou TDAH ou dislexia ficando.

É importante considerar que há inúmeros fatores envolvidos no processo de escolarização que precisam ser levados em consideração, principalmente, por estarem condenando crianças ao estigma causado por uma etiqueta psiquiátrica. Dentre eles, os problemas decorrentes dos desvios de finalidade nas políticas públicas, como aquelas voltadas aos interesses de grandes grupos econômicos, bem como os desvios de verbas e práticas de corrupção; a vida em sociedade com uma exigência cada vez maior sob o ponto de vista do produtivismo/mercantilismo/utilitarismo; a mídia geral na massificação de incentivo ao consumo inconsequente; a superestimação provocada pela tecnologia digital e pelo modo de vida da sociedade contemporânea; os dilemas e angústias vividos por famílias que se veem obrigadas a entregar a educação dos seus filhos a outras pessoas para com a sua jornada de trabalho exaustiva suprir as necessidades básicas de
alimentação e moradia; as muitas dificuldades enfrentadas pelos profissionais da educação em sua função social, bem como a banalização e a falta de reconhecimento e valorização do profissional da educação; o apelo constante à normatização e a padronização do comportamento em nome de uma falsa moralidade.

Assim, é necessário ampliar o olhar para compreender a complexidade que envolve a vida humana e as muitas implicações de ordem social, política, institucional relacionadas ao não aprender. Enfrentar os desafios de investigar e questionar teorias que tendem a manter um sistema que justifica vultuosos lucros em detrimento da vida humana e promover uma educação que conduza ao pensamento crítico é o que cabe a nós educadores.

Pedagoga; Psicopedagoga e Pós-graduada em Neurociência e Comportamento e Medicina do Comportamento; MBA em Recursos Humanos; Diretora da Evoluir Educacional - soluções em qualificação profissional.
lucy@evoluireducacional.com.br

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