O professor deve ser o centro das atenções em sala de aula?

Algumas reflexões sobre a disposição espacial de uma sala de aula tradicional podem dizer muito sobre o valor atribuído à educação no Brasil.

A tradição da aula expositiva
Quando se pensa em uma sala de aula, quase sempre nos vem à mente o modelo clássico de aula expositiva, em que um professor se impõe à frente da turma sentada, constituindo uma espécie de audiência que, na maior parte do tempo, calada, acompanha a exposição de informações e conhecimentos. Uma coisa é certa: o professor sabe mais e, por isso mesmo, ocupa esse lugar institucional em sala de aula. Mas o que podemos relativizar a partir desse modelo é o fato de que o conhecimento não é construído de uma maneira meramente expositiva. Pelo contrário, o conhecimento é e deve ser construído em conjunto, sendo o professor o maestro dessa orquestra que busca a harmonia perfeita entre as notas que cada aluno sabe tocar. A construção de conhecimento livre e endossada pelo conjunto certamente possui um alcance e uma potência de permanência muito maior do que aquele de uma aula meramente expositiva. Ainda mais se levarmos em consideração variáveis que influem cabalmente na performance docente, tais como preparo, técnica didática e até mesmo o carisma do professor.

Ensino básico x ensino superior
Quando falamos em ensino básico, o modelo é normalmente o tradicional: a instituição do professor em pé à frente da audiência de alunos sentados e a aula expositiva que nem sempre consegue alcançar ou construir o conhecimento através da troca ou compartilhamento de conhecimentos. No entanto, quando partimos para o âmbito do ensino superior, a situação é mais comumente a inversa: professores que não se põem de maneira institucionalizada à frente da audiência discente, expõem seus conhecimentos e incitam a participação dos alunos, para que assim construam ou encontrem juntos, num modelo de constelação, o conhecimento. Isso não significa uma desordem criativa ou uma espécie de brainstorm no lugar da aula, pelo contrário: ainda que os alunos tenham a posse da palavra por mais tempo do que o próprio professor, cabe a este conduzir os rumos das ideias partilhadas de forma a construir da melhor maneira o conhecimento. Nesse modelo, o professor estaria mais para um mediador e para um provocador do que para um simples expositor de ideias.

Agindo desse modo, podemos dizer que o aluno se desvincula quase que obrigatoriamente da passividade de apenas ouvir. Os mais tímidos também se sentem estimulados a tomar a palavra e expor seus pontos de vista. Todos participam e a aula assume traços de debate ou bate-papo. Até mesmo mudar a disposição do espaço e dos móveis da sala de aula pode ajudar: organizar carteiras em círculos ou o simples fato do professor também sentar-se em frente e próximo aos alunos já traduz a corporeidade de alguém que, antes querer assumir uma autoridade naquele espaço, busca compartilhar o que sabe e, deste modo, visa a colaboração de todos para cumprir seu papel.

O espaço da sala de aula e o valor atribuído à educação
Como foi dito anteriormente, esse modelo não tradicional de aula é mais comum no ensino superior e os motivos para isso são evidentes: no ensino superior, os alunos já são adultos; no ensino básico, os alunos são crianças e, portanto, mais difíceis de disciplinar e lidar, sendo preciso a figura do professor enquanto autoridade para manter certa ordem naquele espaço. Mas será isso mesmo? Pontuamos aqui esta questão. O modelo de aula expositiva e do aluno passivo parece tão naturalizado que talvez seja realmente preciso questionar por que esta ordem dentro de sala de aula precisa ser cumprida. Não é porque os alunos são crianças, inclusive, quanto mais jovens as crianças, mais livre é o espaço de disposição do professor e dos alunos em sala de aula: é só pensar em como são as salas de maternal ou jardins de infância: carteiras dispostas em pequenos grupos, professores sempre circulando e atendendo quase que individualmente os alunos.

A real autoridade do professor
Todavia, este texto também não propõe nenhum método pedagógico sobre a atuação do professor como centro expositor do conhecimento em sala de aula ou do professor como mediador de um conhecimento construído em conjunto com os alunos. Existem diversos métodos e/ou teorias que justamente propõem o fim desta centralidade do professor em sala de aula para que o ensino seja mais eficaz. O que este texto propõe é uma breve reflexão sobre qual o significado da centralidade do professor no espaço da sala de aula no contexto brasileiro? Não seria essa autoridade marcada pela disposição espacial dos corpos uma inversão conceitual do que significa a real autoridade do professor?

A real autoridade do professor é o conhecimento que carrega e que permanentemente busca, a forma como o compartilha generosamente e a habilidade de conduzir uma construção de novos conhecimentos com seus alunos. Esses aspectos são dificilmente notados por alunos e até mesmo pelos próprios professores. Aquele que espalha e ajuda a construir o conhecimento não precisa permanecer do alto de um tablado falando mais alto para demonstrar sua autoridade. Mas a forma como nossa sociedade enxerga os professores parece não lhes deixar muitas outras opções. Enquanto o Brasil não abrir os olhos para a necessidade de uma educação de qualidade universal, enquanto o professor for visto como um mero prestador de serviços, ele dificilmente poderá descer do tablado e conduzir com tranquilidade o conhecimento trocado em sua sala de aula. E a disposição espacial defasada que vemos na maioria das salas de aulas brasileiras diz muito sobre a defasagem presente em nosso entendimento sobre o real valor da educação.

Texto produzido pela equipe da Futuro Eventos.

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