O retrocesso trazido pelo ensino confessional

A religião é uma forma de organização de mundo. Conhecer apenas uma religião acaba tolhendo o conhecimento ampliado de nossos estudantes e promovendo o proselitismo que é desnecessário a qualquer sociedade que se pretende igualitária e justa.

O último dia 27 foi de polêmica no STF (Supremo Tribunal Federal), quando a corte determinou, por seis votos contra cinco, a implantação do ensino confessional em escolas públicas, ou seja, que as instituições podem elaborar a grade da matéria de ensino religioso baseada em apenas uma forma de crença, assim como, também pode ser ministrada por um representante de determinada crença. A ação jugada pelo plenário do STF foi movida pela PGR (Procuradoria Geral da República), alegando que ministrar apenas um tipo de crença nas escolas é promover o fortalecimento de dogmas que violariam o caráter laico do Estado. Porém, a ação da PGR foi negada, causando críticas por parte de diversos educadores, ao mesmo tempo em que agradou certos setores da sociedade e membros de bancadas políticas conservadoras. Mas para além da discussão política, judicial ou da laicidade do Estado, gostaríamos de pontuar nesse post o verdadeiro impacto que uma decisão retrógrada como essa pode ter sobre cada estudante que passa pelo Ensino Básico.

Religião como forma de organizar o mundo
Comecemos do caráter básico de uma religião e que nem sempre é percebido, justamente por vivermos tão envolvidos com dogmas e crenças invioláveis: toda religião é uma forma de organização do mundo. Existem diversos aspectos da vida humana que não possuem explicação racional, por exemplo, a morte. Ninguém é capaz de nos garantir que existe vida após a morte, alma ou reencarnação. Inclusive, essas ideias são todas derivadas da religião. Como o ser humano não é capaz de explicar aquilo que ocorre após a morte de alguém que ama, ou que acontecerá com a sua própria morte, cria uma narrativa que organize esses aspectos que ficam sem resposta.
Outro exemplo: por que motivo algumas pessoas nascem em melhores condições físicas e sociais do que que outras? A religião também busca explicar essas disparidades que parecem bastante injustas se paramos para pensar. Por que alguém nasce cego ou com problemas de saúde graves? O que essa pessoa fez para merecer tal condição? Tentando fugir da ideia absurda de que é o simples acaso ou o caos, recorremos à religião.
Assim, cada religião implementa seus dogmas inquestionáveis justamente para que seus seguidores não se angustiem mais sobre esses aspectos do mundo que parecem absurdos. Deste modo, pode-se dizer que toda religião é uma forma de organizar fatos do mundo que normalmente não possuem explicação racional. Também, é uma forma de congregar pessoas, promover a sociabilidade e a caridade. Existem diversos aspectos positivos em seguir uma religião. No entanto, não há nenhum aspecto positivo em conhecer apenas uma religião.

Conhecer as faces de várias moedas
Como sujeitos livres, escolhemos aquilo no que queremos acreditar. O que é certo para uma pessoa pode não ser certo para outra, mas essa disparidade só existe porque a outra conhece mais de um lado da moeda. É basicamente esse o grande problema em permitir que a matéria de ensino religioso seja guiada por apenas uma crença. Os alunos só conhecerão um lado da moeda, sairão da escola sem conhecer o outro lado ou as faces de tantas outras moedas. Qual o benefício trazido por isso? Maior proselitismo, conservadorismo, doutrinação e discriminação dentro da sociedade? Não parece haver uma resposta racional para tal decisão do STF. Talvez tenha faltado a esses juízes que votaram contra a ação da PGR o conhecimento próprio e ampliado do que é religião.

Texto produzido pela equipe da Futuro Eventos.

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