Corpo e mente em busca do (auto)conhecimento

Atividade física, alimentação saudável e postura correta associadas à aprendizagem têm papel fundamental na construção de futuros cidadãos.

Correr, pular, dançar, alongar, enfim, movimentar o corpo, é visualizar e ocupar seu espaço e se conhecer como sujeito social.

Quando se fala em “Educação Física”, o que vem na sua mente? A cena criada no imaginário da maioria dos brasileiros, já adultos, quando lembram das aulas dessa disciplina está repleta de corridas, exercícios com bola, força, velocidade e suor, muito suor. Porém, com o decorrer da história da educação, essa realidade vem mudando e tomando outras direções, não só no contexto escolar, mas também em outras esferas sociais, com projetos que depositem no esporte, de mãos dadas com a educação, a construção de futuros cidadãos.

O autoconhecimento das crianças como sujeitos sociais

No entanto, como informa a primeira frase desse texto, além de correr, pular, dançar e alongar, a Educação Física tem significativo papel para o movimento corporal, o conhecimento espacial e, principalmente, o autoconhecimento das crianças como sujeitos sociais. Mas será que, para tanto, a responsabilidade está apenas com essa especialidade da educação? Para discutir não apenas o papel da Educação Física, mas também questões como saúde, aprendizagem, alimentação, exercícios físicos e esportes, abordamos aqui a importância da atividade física e sua relação com o contexto educacional. E, para deixar esse debate sob o ponto de vista multidisciplinar, conversamos com especialistas de diferentes áreas, como Educação, Psicopedagogia, Nutrição e profissionais da Educação Física com estudos direcionados à escola, atividade física e saúde.

Educação Física Escolar

Que espaço a Educação Física ocupa nas escolas? Para Gonçalo do Carmo, profissional na área de Educação Física Escolar, esse importante “braço” da Educação deveria tratar da cultura corporal. “Seu papel é o de estabelecer a reflexão sobre essa cultura e suas relações com aspectos políticos, econômicos e sociais”. Para ele, o principal benefício aos alunos é o de oferecer condições singulares para que o processo de aquisição de conhecimento se estabeleça. “A criança, a partir da ação motora, orientada de forma adequada, pode compreender como o processo de aquisição de conhecimento se estabelece, pode agir com e sobre esse conhecimento bem como transformá-lo”, diz Gonçalo do Carmo.

Como Pensa o Educador e Psicólogo Júlio Furtado?

Ele afirma que a Educação Física cumpre o papel de lembrar, a todo  momento, o caráter holístico do ato de educar. “É, na maioria das vezes, um canal de libertação da sala de aula, um momento em que o aluno pode se perceber por inteiro”. Furtado explica que a identidade da Educação Física, como área específica, está se fortalecendo cada vez mais à medida que ela se volta para o seu real papel: desenvolver o gosto pela atividade física e ensinar hábitos saudáveis. Ele também destaca o papel político dessa disciplina escolar, pois um sujeito consciente de seu corpo e de seu espaço é um sujeito mais consciente de si mesmo, de suas possibilidades e limitações. “O enfoque da apropriação corpóreo-espacial é fundamental na construção de um sujeito com autoestima mais saudável, pré-requisito para a constituição de um cidadão consciente”. Furtado enfatiza que o enfoque “anatomista” do corpo e “tecnicista” do esporte foram muito úteis em um mundo que pensávamos “pronto” e que só precisava ser transmitido para o aluno. “Em uma realidade interativa e em construção, e em uma época de redimensionamento de valores e sistemas, o professor de Educação Física precisa ter consciência de sua importância no processo de reconfiguração do mundo”, afirma Júlio Furtado.

Compreender o Eu ou aprender nome de músculos?

Gonçalo do Carmo expõe sua opinião ao dizer que apenas ensinar o nome de alguns músculos, exercícios, ou mesmo alguma ação motora técnica, não é tarefa da Educação Física e nem de nenhuma outra área de conhecimento que pretenda estabelecer relação com o processo de aprendizagem. “A tarefa necessária aponta na direção de se compreender o EU enquanto sujeito social e que, portanto, estabelece relações e/ou é determinado por uma série de esferas políticas, econômicas e sociais”. Ou seja, a Educação Física pode contribuir para a formação dos alunos de maneira mais ampla na medida em que estabelece relações do movimento corporal com as questões sociais. Além disso, cria possibilidades de usar o diálogo para intermediar conflitos, mas remete ao indivíduo dotado de capacidade crítica a condição para se compreender uma determinada realidade e agir sobre ela sempre que necessário.

O que a criança aprende com a Educação Física?

  • a se frustrar sem achar que “não vai aguentar”. Vivenciando saudavelmente a frustração, a criança aprende a encarar desafios, a desenvolver ousadia;
  • a respeitar regras e a se submeter às punições advindas do desrespeito a elas;
  • com os esportes coletivos, aprende a ser parte integrante de uma equipe e, como tal, colaborar, fazendo sua parte no todo;
  • a receber críticas e aprender a lidar com elas;
  • a desenvolver um objetivo e se esforçar para atingi-lo;
  • a se auto avaliar.

Diferentes olhares na escola

Isto significa que a escola, em sua reconstrução constante, está em processo de mudança do olhar com relação à Educação Física e seus profissionais. Mas e os colegas da Educação? Os educadores de outras disciplinas? E mais… Como é o olhar do próprio profissional de Educação Física?

Geralmente, a Educação Física provoca algumas reações dos professores mais tradicionais, ainda presos ao paradigma comportamental da aprendizagem. “Como não concebem o aprender como um fenômeno que envolva o corpo, nem a existência de diversas inteligências, não levam a sério as aprendizagens proporcionadas pela Educação Física”, fala Júlio Furtado. O que levaria esses educadores a terem essa postura?

Imaginem uma cena de crianças, no momento das aulas de Educação Física, correndo, suando, falando e, especialmente, se descobrindo enquanto sujeitos, bem como os movimentos que seus corpos são capazes de fazer… Mas, além dessa cena, visualizem essas crianças retornando aos bancos escolares em aulas como Matemática, Ciências e Português, entre outras. Como o professor dessas disciplinas pode aproveitar essa “agitação” em benefício da aprendizagem de seus conteúdos?

Primeiramente, Furtado explica que é altamente compreensível e coerente o comportamento dos alunos ao voltarem à sala de aula depois de aproximadamente 50 minutos de atividade física intensa. Mas ele alerta que, quanto mais “aprisionados” na forma de se expressar nas demais aulas, mais libertos irão se sentir nas aulas de Educação Física. “Sentir-se em liberdade não é necessariamente correr, gritar e pular, mas pode ser também se expressar de forma mais ampla e livre, através do movimento, o que manteria os corpos menos prisioneiros”. Quando, por exemplo, na grade de horários as aulas de Matemática estiverem logo após as de Educação Física, poderia começar um jogo. Ou seja, trabalhar com atividades com níveis decrescentes de agitação. “A agitação, por si só, não é um comprometimento à aprendizagem. O que compromete a aprendizagem é o fato do professor não saber agir propondo atividades que aproveitem positivamente essa agitação”, diz o educador.

Porém, os professores de outras disciplinas estão preparados para atuar com interface à Educação Física? Tanto Gonçalo quanto Júlio Furtado são enfáticos ao afirmarem que não. O primeiro afirma que ela ainda carrega a imagem de uma disciplina decolada do contexto da reflexão. Para ele, muitos professores e pais têm como referência uma prática motora baseada somente em aspectos técnicos ou sem fins pedagógicos. “Na atualidade, a produção acadêmica é crescente e o reconhecimento do movimento como um eixo fundamental começa a ganhar contornos mais nítidos”, complementa ele. O segundo também expõe sua posição ao falar que encarar a importância da Educação Física dentro das escolas envolve reconhecer o imprescindível papel do movimento, da participação coletiva, da convivência grupal, da gestão de equipes, da divisão de poder. “A realidade das escolas nos mostra um professor que ainda se sente ameaçado por essas questões. Isso os leva a um mecanismo de defesa, caracterizado pelo descaso com relação a essas questões”.

A realidade educacional e a comunicação do conhecimento

Educar não se limita a compreender apenas números e vocábulos. Educar implica assumir a realidade educacional como a primeira referência e, a partir dela, construir conhecimento. Estabelecer relações com outras áreas amplia as possibilidades de aprendizagem concreta, ajuda a tornar o conhecimento significativo. É nesse contexto que está a importância em estabelecer e concretizar a integração entre a Educação Física e as demais disciplinas escolares. Entretanto, para Júlio Furtado, as ações pedagógicas dos professores de Educação Física ainda não são claras e conscientes dentro do processo ensino-aprendizagem. “Esse professor, em geral, precisa compreender melhor os diferentes processos de aprendizagem. Isso fará com que ele possa, de forma consciente, colaborar mais eficientemente com o salto das aprendizagens das crianças e adolescentes”.

E questões como saúde, educação do físico, alimentação saudável e postura correta? Como relacioná-las com a ação pedagógica e como educar as crianças sobre esses benefícios à vida dentro e fora da escola?

Como o professor de Educação Física pode trabalhar com turmas heterogêneas?

  • Propor atividades variadas em função das limitações e potencialidades;
  • Respeitar o desempenho individual, não colocando um ritmo esperado, mas frisando a importância de cada um dar o melhor de si;
  • Gerir a diversidade por meio de atividades em que as diferenças possam se integrar. Dessa forma, os mais lentos, por exemplo, podem desempenhar papéis em que a velocidade não seja exigência tão essencial;
  • Trabalhar com a metodologia cooperativa, na qual o objetivo principal será fazer com que todos alcancem as metas propostas.

Corpo são, mente sã

“Ser professor é mais do que uma profissão. Ser professor de Educação Física deve ser também um estilo de vida. Educar o físico é conscientizar o cidadão do papel do seu corpo para sua vida e para o mundo”. Com essa afirmação, a personal training, Luciana Medeiros, mostra como é importante apresentar aos alunos que o exercício diário é fundamental para a conquista da saúde e para uma vida equilibrada em todos os aspectos: alimentar, físico, emocional e espiritual. Com relação à alimentação, a nutricionista Sirlei Moletta comenta sobre a obesidade infantil. Ela explica que esse fenômeno não está relacionado apenas a um fator, mas sim ao estilo de vida em geral. “A atividade física dever ser estimulada a todo o momento, dentro e fora da escola. Simplesmente aumentar o número de aulas de Educação Física não seria suficiente, já que a atividade física não é a única solução para tal. Bons resultados podem ser obtidos através de estímulos e cuidados gerais com a saúde”. Para que a criança alcance um peso mais adequado, e consequentemente uma saúde melhor, é fundamental trabalhar com ela a atividade física e o hábito alimentar saudável. “Mas não basta somente dar exemplos do que deve ser feito, são imprescindíveis ações educativas que expliquem a importância da escolha de um estilo de vida saudável, envolvendo também a família nestas ações”, afirma a professora Sirlei Moletta.

Mas o que fazer para estimular uma criança com excesso de peso a praticar atividade física?

Luciana Medeiros comenta que, nos últimos dez anos, o Brasil foi o país com maior aumento no número de obesos. Essa realidade é consequência da cultura de fast food somada ao crescente sedentarismo da população. “Um aluno obeso sente-se deslocado e desengonçado para a prática da atividade física. Todos esses sentimentos interferem em sua autoestima e o afastam das atividades físicas e de todos os benefícios advindos. O professor de Educação Física pode criar atividades em que esse aluno possa se sentir valorizado e capaz de realizar tarefas físicas”. Luciana exemplifica ao dizer que exercícios aquáticos podem ser uma boa opção, pois diminuem a exposição do corpo durante a atividade e, pela imersão na água, fica mais fácil a sustentação do peso corporal. Além disso, ela explica que aulas teóricas alegres, nas quais professores e alunos possam trocar conhecimento sobre benefícios da atividade física para saúde, força, postura e emagrecimento, também podem conscientizar a turma para a necessidade de inserir em suas vidas rotinas com exercícios físicos. “Pessoas que têm o exercício físico incorporado a sua rotina retardam os efeitos estruturais do envelhecimento, têm redução das dores musculares e articulares causadas pelo sedentarismo, pois o sistema imunológico de indivíduos ativos atua como um concerto, diminuindo a incidência de doenças, das mais simples, como um resfriado, às mais graves, como o câncer”, conclui Luciana Medeiros.

A inclusão do movimento corporal na fase escolar

Tadeu Natálio, profissional da Educação Física, comenta que a criança e o adolescente que praticam exercícios físicos habitualmente obtém benefícios como o aumento de habilidades para a satisfação de atividade do dia-a-dia, melhorias das habilidades motoras, redução de lesões, melhora do senso de responsabilidade de grupo e da autoconfiança, melhoria da adaptação social e maior desenvolvimento espaço temporal. Com a exposição das ideias dos especialistas, é possível verificar que a Educação Física é muito mais que uma disciplina escolar onde cujas aulas são “fora” da sala de aula. O médico Marcelo Leitão, especialista em Medicina Esportiva, ratifica a opinião do especialista Tadeu Natálio, ao afirmar que a inclusão do movimento corporal na fase escolar, além de beneficiar o aluno diretamente, também ajuda a criar o hábito da prática regular de exercícios, reduzindo a probabilidade de que este jovem se torne um adulto sedentário. “Devemos enxergar a atividade física como um fator com o qual o organismo humano sempre contou, e que repentinamente foi retirado de nosso dia a dia. O que aconteceria se, de repente, nós parássemos de ter o ciclo dia-noite-dia? Certamente teríamos diversos problemas de saúde provenientes desta situação imaginária”, afirma o médico Marcelo Leitão. O importante é refletir sobre as relações e interfaces das atividades físicas com a ação pedagógica e com questões como saúde e bem-estar. Mas não podemos deixar de lado um dos aspectos da atividade física, na qual a criança aprende a conviver em grupo, a ganhar e perder, respeitar, a conviver com regras, direitos e deveres: o esporte.

Formando um cidadão

Os esportes ensinam aspectos fundamentais à formação de um cidadão. “Como um processo de aprendizagem para a vida, ganhamos, perdemos e empatamos, voltamos a ganhar, a perder, a empatar. É essencial aprender a perder e a se frustrar o mais cedo possível. É uma aprendizagem dolorosa, porém libertadora”, comenta o educador Júlio Furtado. Para ele, a idade ideal para a prática do esporte é quando a criança já tem condições de reconhecer e respeitar o espaço e o direito do outro.

Mas e quando o assunto é um exercício direcionado, como musculação, por exemplo? Musculação é vencer uma sobrecarga, e isto pode vir de halteres, barras ou até mesmo de elásticos e do próprio peso corporal. Com esta linha de pensamento, ela se encontra presente na vida das pessoas desde pequenas, quando a criança tenta se levantar segurando a barra do berço, quando sobe em árvores ou pula sobre uma perna. No entanto, para iniciar a musculação tradicional das academias é preciso ter uma idade mínima. “Crianças e jovens devem fazer muito exercício físico para ter crescimento saudável e criar hábito de estilo de vida ativo. Nesta fase, o ideal é uma atividade lúdica que incentive o desenvolvimento motor e a consciência corporal”, explica Luciana. Já Tadeu Natálio afirma que o correto é iniciar esta atividade aos 15 anos. “Nessa fase já existe uma melhor adaptabilidade fisiológica para o fortalecimento de diversos grupos musculares”. Mas ele alerta que o importante é respeitar as fases e níveis de rendimento desportivo. Quando criança, ainda não existe um comprometimento sério com o treinamento. Nessa fase, ela aprende que o importante é viver em grupo e participar de atividades utilizando capacidades físicas e motoras como força, resistência e velocidade. O adolescente está pronto para o treinamento desportivo, podendo praticar qualquer atividade sem prejuízo ao corpo, mas desde que respeitados os limites impostos pelo educador físico. Já na fase adulta, com a estrutura músculoesquelética formada, é possível optar por qualquer atividade, seja em grupo ou individual. “O importante é respeitar os limites do treinamento e a quantidade de sobrecarga a ser utilizada, pois nessa fase ocorrem, com maior frequência, as lesões”, complementa Tadeu Natálio.

Independente do esporte escolhido pelas crianças, dentro ou fora da escola, o importante é mostrar a todas que atividade física, alimentação, saúde e aprendizagem estão intrinsecamente associadas para a construção de um bem-comum: futuros cidadãos conscientes de seus espaços como sujeitos sociais, com hábitos saudáveis, postura correta e corpo são.

Patricia Melo. Jornalista e Redatora da Presença - Comunicação Educacional.

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