A Ressignificação do corpo

A sucata como ponto de partida para uma reflexão sobre o corpo na atualidade e seu papel social

O ser humano, ao longo de sua evolução, foi construindo certos conhecimentos ligados ao uso do corpo e ao seu movimento. Afinal, o que dá sentido ao movimento humano é o contexto em que ele ocorre, bem como as intencionalidades dos sujeitos envolvidos nessa ação.

Desde a época moderna, vivemos um tempo caracterizado pelo consumo excessivo, associado de forma cada vez mais forte a parâmetros radicalmente individuais. O tempo de hoje é, infelizmente, um tempo que se afastou e se afasta cada vez mais da natureza, como podemos perceber na inconsequente ação destruidora contra o meio ambiente. Vivemos em um frenético mundo do descarte, onde a natureza se transforma de vida em lixo. Lixo esse que volta à natureza como agente de corrosão e corrupção dos bens naturais necessários à nossa própria sobrevivência.

Assistimos, em nossos dias, à ascensão da cultura da valorização do corpo e das práticas esportivas (de forma mais ampla denominada “cultura de movimento”), como um dos fenômenos mais veiculados nos meios de comunicação de massa, dada a sua relevância mercadológica globalizada. Assim, os esportes, as danças, as ginásticas e os exercícios físicos tornam-se, cada vez mais, produtos de consumo. Somos atingidos por um bombardeio de imagens e enunciados que propõem um padrão de beleza corporal a ser alcançado por todos.

À imagem do corpo associa-se, hoje, uma infinidade de produtos para as mais diversas finalidades, em busca de um padrão estético eleito como ideal e que descarta qualquer desvio ou singularidade. Nesse sentido, o corpo que não atenda a esses padrões, como todo objeto de consumo, tende a ser tomado como uma estranha forma de “sucata”, tanto pelo olhar do grupo social quanto pela visão que o indivíduo tem sobre si mesmo. Sendo assim, aparece como de fundamental importância o exercício de ressignificação do corpo que o educador pode propor nessa realidade coisificadora.

Originalmente, sucata (do árabe sugàt) significa “objeto sem valor”. Há propostas de trabalhar com esses objetos atribuindo-lhes novos sentidos, retirando o objeto sucateado do seu vazio significativo. Ora, o educador poderia atuar no mesmo sentido, na conscientização dos educandos ao utilizar a sucata como ponto de partida para uma reflexão sobre as questões relacionadas ao corpo e que, no fundo, estão intimamente relacionadas ao próprio modo de vida consumista da atualidade.

A utilização da sucata na escola poderia ser concebida como dispositivo para jogarmos com a cultura. Assim, viabilizaríamos a todos os envolvidos no processo educacional possibilidades concretas de intervenção e transformação desse patrimônio humano relacionado à dimensão e ao movimento corporal. Desta forma, ao ressignificar a sucata, ao desnaturalizar o mundo do objeto que já não serve, objeto que perdeu seu significado primeiro, o indivíduo possibilita novos significados para si próprio e para o mundo.

Ao brincar com fragmentos de bonecas descartadas, o educador ressignifica, possibilitando, talvez, sua maior liberdade de invenção e criação, tornando-se mais que consumidor do mundo contemporâneo.

 

Escultura de sucata realizada em oficina com educadores

Ao brincar com fragmentos de bonecas descartadas, o educador ressignifica, possibilitando, talvez, sua maior liberdade de invenção e criação, tornando-se mais que consumidor do mundo contemporâneo.

Gisele Gonçalves Melles de Oliveira. Graduada em Psicologia. Mestre e Doutora em Psicologia. Docente na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP/Assis, SP e Universidade Paulista. mellesdeoliveira@gmail.com

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

RECEBA NOSSO CONTEÚDO EXCLUSIVO.