O educador estará presente na Educar 2012, integrando a mesa debates, com o tema: “Esqueceram de Mim? Desta Vez na Escola? A Carência Familiar na Educação Escolar e as Decorrências Destas Ações”. Confira seu artigo publicado na Revista Aprendizagem edição 27.

Professor, você se sabota? Descobrir se você anda se autossabotando é o primeiro passo para deixar de puxar seu próprio tapete

Sabotar tem o sentido de danificar, destruir, agindo deliberadamente no sentido de impedir o pleno funcionamento de uma máquina ou a plena execução de um projeto. Essa sabotagem é consciente e está voltada para uma ação externa, no intuito de demonstrar o desagrado que alguém experimenta.

Há, porém, outro tipo de ação destrutiva, inconsciente e até mais danosa pelos efeitos que gera. Trata-se da autossabotagem, caracterizada pela puxada que damos em “nosso próprio tapete”, impedindo-nos de obter, aceitar e até desfrutar do sucesso obtido ou daquele que sejamos capazes de alcançar.

Há professores que se autossabotam independente do tempo de magistério, do salário, dos recursos, das instalações da escola, do reconhecimento social da profissão escolhida, pois já se viam às voltas com esse mecanismo antes mesmo de ingressarem na área da educação.

A autossabotagem denota uma dificuldade em lidar com a realidade e suas agruras, é um recurso inconsciente de defesa com o qual a criatura tenta se blindar contra sofrimentos reais e imaginários.

Mas como perceber se na vida particular ou no cotidiano escolar estamos nos sabotando? Há algumas posturas que podem nos ajudar a suspeitar e identificar se de fato isso está ocorrendo. São elas:

•     O educador que se autossabota normalmente desconfia dos elogios que recebe dos seus pares ou da direção da escola. Não acredita merecê-los e crê ser alvo de deboche, ironia, pois não reconhece no trabalho que realiza nada que seja digno de destaque.
•     Por não se fixar em suas próprias características e acreditar em seu próprio potencial, vive se comparando com educadores com maior experiência, carisma, projeção e, nesse exercício, coloca-se frequentemente para baixo.
•     É alguém extremamente controlador com seus alunos, não aceitando e sofrendo muito quando um pequeno detalhe foge ao seu domínio. Não consegue se flexibilizar para aproveitar e aprender com variáveis que escapam ao seu rigoroso controle.
•     Alimenta a ilusão de encontrar escolas, colegas, alunos, orientadores, diretores e pais de alunos que sejam perfeitos. E como isso não ocorre na proporção que gostaria, sofre imensamente, adoecendo com frequência.
•     Ao fazer da escola o seu palco, vive encenando, não por ser uma pessoa criativa, tenha veia artística, mas porque se envergonha de ser quem é, não se aceitando nem se assumindo com suas próprias características.
•     Dedica-se de corpo e alma ao magistério a ponto de esquecer os cuidados mais básicos com sua própria saúde, comprometendo sua qualidade de vida. Nessa dedicação nunca diz não, assume erros que não cometeu, concorda com o que deveria discordar, é o educador bonzinho, figura frequentemente explorada e manipulada por todos.
•     Aceita sem resistência as realidades que podem e devem ser modificadas com seus esforços e iniciativas (impotência). Ao mesmo tempo, tenta exaustivamente mudar o que precisa ser aceito (onipotência). Isso ocorre porque não consegue distinguir uma coisa da outra na sua vida pessoal e profissional.

Ao tornar essas posturas inconscientes cada vez mais conscientes, o educador pode se dar conta do quanto se autossabota, do quanto é possível, gradativamente, romper com certas neuroses que condicionam e limitam sua vida.

Essa percepção não opera o milagre de alterar as condições políticas, econômicas e sociais que atravessam o magistério. Mas, considerando que nenhum ser humano, seja educador ou não, nasceu para viver refém de si mesmo, infeliz, lamentando a sorte, ela é capaz de fazer com que abandonemos o fardo desnecessário a fim de podermos prosseguir com aquele que é inerente ao ato de educar. E isso já trará um grande e significativo alívio.

Abra os olhos professor! Sobretudo os olhos internos a fim de se ver como é, como pode vir a ser e não apenas como julga que seja.

Autor: Cesar Braga Said – artigo originalmente publicado na 27ª edição da Revista Aprendizagem.

Confira a programação completa da Educar 2012

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