Confira o artigo de Fernando Leme do Prado, convidado para a mesa de debates no Profitec com o tema: “Educação Profissional e Tecnológica Frente às Demandas Aceleradas da Indústria e Comércio Brasileiro.”

 

Educação Profissional no Brasil

O momento é positivo para a Educação Profissional no Brasil. Entenda melhor a fase que vivemos e saiba o que esperar daqui para frente

Que vivemos em um mundo de aceleradas mudanças, permeado por avanços tecnológicos, equipamentos sofisticados e renovação de habilidades e conceitos, ninguém tem dúvidas. Se estamos preparados e conseguiremos conviver com tudo isso já é uma outra história.

Basta observarmos coisas simples, como abrir o jornal no domingo e encontrar empresas anunciando vagas indicando como exigência de escolaridade o 2º grau completo. Não temos “2º grau” no Brasil há uma década e meia. Quem não se deu conta disso, anunciantes ou anunciados? Infelizmente, é bem provável que ambos. Por essa mesma via do desconhecimento, a carência de técnicos, tão propalada, tem a mesma origem.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB, de 1996, extinguiu o 2º grau profissionalizante, separou o Ensino Médio e a Educação Profissional, esta contemplada com um capítulo especial, que, inclusive, ressuscitava os cursos superiores de tecnologia. Assim, ficamos quase dez anos formando pouquíssimos técnicos e, agora, descobrimos que faltam técnicos.

O desconhecimento da legislação, da estrutura e do funcionamento dos ambientes escolares, associado ao saudosismo equivocado que apregoa que as escolas do passado é que eram boas, provoca todo tipo de reação: do empresário que reclama das escolas que não preparam para o mundo do trabalho, ao pai que não sabe mais quais as carreiras que seus filhos devem seguir para serem, razoavelmente, bem sucedidos.

Diante de tanta informação e novos cursos, surgem perguntas sobre a qualidade e a avaliação desses cursos. Será que o curso é reconhecido? Reconhecido por quem, ou o que isso quer dizer, parece secundário.

A divulgação de resultados das avaliações feitas pelos órgãos públicos ganha repercussão, mas ninguém questiona os instrumentos utilizados nessas avaliações. Seriam confiáveis? As diferenças entre as modalidades de cursos permanecem nebulosas. Bacharelados ou tecnológicos? Técnico e tecnológico é a mesma coisa? São questões que perpassam os que estão fora da escola e, até mesmo, muitos que estão dentro.

Essas questões poderiam ser respondidas de modo normativo alegando, por exemplo, que os cursos técnicos são de nível médio e os cursos tecnológicos são de nível superior. Mas não estaríamos eliminando o ponto central da dúvida: que diferença isso fará na vida do jovem que quer ingressar no mercado de trabalho?

A tradição brasileira é essencialmente bacharelesca e, assim, cursar uma faculdade é imperativo para todo jovem deste país que queira ser alguma coisa na vida. Entretanto, a realidade tem nos mostrado que é perfeitamente possível ser bem sucedido, e feliz, com outras formações. Para isso, temos que, definitivamente, abandonar as propostas instrucionistas/conteudistas que presidem a nossa escolarização.

Informações estão disponíveis em todo lugar, se as enciclopédias estão embolorando nas bibliotecas por absoluta falta de uso, por que, então, a escola insiste em repeti-las acreditando que ensino e aprendizagem são farinha do mesmo saco? A educação profissional, e todos os demais tipos de formação, precisam de mudanças metodológicas para acompanhar a revolução que se observa nas nossas relações com o mundo.

Os preconceitos em relação aos cursos técnicos e tecnológicos diminuem na mesma proporção em que crescem as matrículas nessas modalidades de ensino, sobretudo em função da expressiva aceitação que seus egressos têm obtido no mercado de trabalho. O mundo da produção, para permanecer vivo e competitivo, precisa de pessoas que apresentem resultados no menor tempo possível e os conhecimentos, habilidades e competências dos formados pela educação profissional têm preponderado sobre os que advêm de outras formações.

O foco no mercado, que é a principal característica de um curso superior de tecnologia, tem assegurado elevados índices de empregabilidade, o que tem sido obtido graças a propostas voltadas para a prática, metodologia de projetos e professores e coordenadores com experiência profissional e atuantes no mercado.

Entretanto, esses aspectos não têm a relevância que merecem dos organismos avaliadores, que preferem pontuar, por exemplo, professores com titulação acadêmica e tempo integral. Da mesma forma, há pouquíssimos programas voltados à formação e capacitação de professores para a educação profissional, sobretudo no nível superior. Com isso, corremos o risco de transformarmos os cursos tecnológicos em mini bacharelados, que atendem os instrumentos de avaliação, asseguram boas notas para as faculdades ofertantes, tanto na avaliação institucional quanto na avaliação dos alunos, mas que colocariam os tecnólogos em situação de desvantagem no mundo do trabalho.

Nesse cenário, a educação profissional deve continuar se expandindo, no nível técnico para preencher a lacuna criada pelas mudanças determinadas pela LDB de 1996, mas também pela crescente necessidade de formação de pessoas para atender as realidades e avanços do mundo produtivo, tanto nos ambientes presenciais como nos ambientes virtuais. Isso também se aplica aos cursos superiores de tecnologia, principalmente se puderem demonstrar aos diversos organismos de supervisão, normatização e avaliação que a formação profissional se faz construindo a teoria através da prática e não o inverso.

Os verdadeiros indicadores de qualidade devem vir dos setores produtivos e não das cabeças normatizantes do Ministério da Educação. O fator empregabilidade dos egressos deveria ser item de destaque, assim como o seu acompanhamento, pois deles virão as melhores informações sobre a evolução tecnológica e os mecanismos para aprimorar as relações entre os meios produtivos e educacionais.

A educação profissional, e em especial os cursos tecnológicos, se desenvolveram de forma significativa nesta última década. Neste momento, está em fase de estabilização e, graças ao volume de matrículas e de formados, já supera muitas das desconfianças e restrições do seu reinício nos princípios deste século. Um exemplo disso é que poucos setores ainda reacionários discriminam os tecnólogos e quase todos os programas de pós-graduação já os aceitam. A graduação tecnológica não só é uma realidade como atende as necessidades demandadas pelo mercado de trabalho.

Autor: Fernando Leme do Prado – artigo originalmente publicado na 28ª edição da Revista Aprendizagem.

Confira a programação completa da Educar 2012

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